Gosto muito de música instrumental, não que não escute músicas com letras, prova disso é minha paixão pelo O Teatro Mágico que declarei no post passado. Mas música pra mim antes de ter boa letra deve ter boa melodia, e nas instrumentais isso é fácil de se encontrar devido ser o maior atrativo da música (lógico!). Dentre as instrumentais que ouço constantemente sempre estão faixas de Yanni, Vanessa Mae e outros.
Em 2005, durante uma das minhas andanças pela internet descobri uma artista que segue a mesma linha da Vanessa Mae. Linda Brava, ou Linda Lampenium, como era conhecida na época a violinista loira finlandesa que toca diversos gêneros musicais. Após baixar o album single (disponibilizado na internet na época) e escutar a segunda faixa, intitulada Flame, minha mente se encheu de imagens e inspirações súbitas e foi quando escrevi o texto que segue abaixo e que na época tinha publicado no meu blog. Segue então "A Torre" (revisado e corrigido, rs):
Uma torre. Alta. Muito alta. Tão alta que não é possível saber onde se inicia quando olho para baixo. Somente nuvens, uma imensidão de nuvens, escondem o chão que deve suporta a base desta torre. Olhar para baixo é algo assustador, parece que a qualquer momento vou cair em uma queda livre sem fim. Mas ao mesmo tempo, algo me chama. Algo me faz sentir que posso saltar. Uma sensação estranha e sutil, mas que dá uma leve segurança.
O vento aqui em cima é muito forte. Certas horas dá a impressão de que ele tenta me empurrar, como se meu lugar não fosse ali. Procuro por outros meios para descer, mas não há. Me pergunto como vim parar aqui. Olho para baixo e novamente a sensação de medo e angústia acompanhados da certeza de que só há uma coisa a ser feita. Estou com certeza em uma prisão sem paredes e a única forma de escapar dali, é saltando.
Me aproximo mais da beirada, junto os pés, o coração começa a acelerar, ergo a cabeça, abro os braços, respiro fundo, fecho os olhos e deixo a gravidade fazer o que ela sabe fazer de melhor. Agora é tarde para voltar atrás. Meu corpo cai livre e solto. O frio na barriga é inevitável. A sensação de insegurança, aterrorizante. Ao meu lado, as paredes laterais da torre sobem cada vez mais rápido e em pouco tempo, estou no meio das nuvens. Por um instante me sinto um pouco melhor. Ficar entre as nuvens, sem noção de onde estou, dá uma falsa sensação de liberdade, um falso bem estar.
Mas logo as nuvens passam e novamente o medo toma conta de mim. Desta vez é mais intenso, pois já consigo ver meu destino. O solo, aquele que antes nem era possível ver, agora estava ali diante dos meus olhos e se aproximando. Sabia agora que estava perto do meu fim e que logo mais tudo aquilo acabaria. Diversos pensamentos passavam pela minha cabeça rapidamente e de repente me veio aquela sensação de que poderia sair dessa situação, que se eu quisesse mesmo com toda minha vontade poderia mudar esta realidade.
Sim, eu posso. Por que não? Eu faço parte dessa realidade, desse mundo. Posso senti-lo. Sim eu consigo senti-lo como o vento que passa por meu corpo. Fechando os olhos consigo sentir mais. Sinto a torre, sinto a luz, os pássaros que voam próximos a torre. É incrível! É como se eles fizessem parte de mim. E fazem! Estamos todos ligados por uma espécie de energia que pulsa.
Agora posso ver. Tão claro quanto o dia ensolarado que está fazendo hoje. Não há porque cair. Não há porque temer morrer. Eu faço parte de todo esse mundo, e todo ele faz parte de mim. Não estou mais caindo. Não quero mais cair. Quero voar. Livre como pássaro. Voar como super-herói de capa, ou como Peter Pan. E por somente querer, estou assim, voando. Leve como uma pena a ser levada pelo vento. A sensação é indescritível. É pura liberdade.
Os pássaros que antes voavam próximos a torre agora me acompanham. Estão tão próximos de mim. Batendo suas asas. Olham-me com um ar de boas vindas. Como estivessem satisfeitos por um amigo ter voltado de uma longa viagem. Continuamos juntos, agora voando sobre a superfície de uma grande lagoa. O espelho de água revela aos meus olhos o que meu ser já tem conhecimento. Estou realmente solto no ar.
Ao prosseguir com minha experiência, me deparo com um campo florido grande e vislumbroso. Formando praticamente um mar de flores de diversas cores e tipos.
Uma área menor com o que aparentam ser dentes-de-leão se destaca no meio deste campo. Como se fosse uma pequena ilha branca. Aproveito para brincar um pouco e dar alguns rasantes entre os dentes-de-leão fazendo suas leves pétalas se soltarem e se espalharem pelo ar. A cena é linda. Por uns instantes lembra a neve. Mas ao invés de cair, flutuam juntos ao ar.
Eis que escuto uma rajada de vento próximo a mim. Um falcão passa em alta velocidade, soltando um grande guincho, me desafiando para uma espécie de duelo de vôo aéreo. Aumento minha velocidade então e começo a segui-lo. Voando por algumas colinas, a ave parece determinada a não perder a liderança, no entanto, consigo acompanhá-lo mesmo voando tão rápido. Suas asas batem de forma harmoniosa e cortam o vento como uma faca. Nossa brincadeira continua e se torna mais emocionante no momento em que penetramos em um bosque. Passando rápido por entre os troncos largos das grandes árvores, ele voa tentando me deixar para trás, mas curiosamente eu já sei todos os seus movimentos. Posso vê-los antes que aconteçam.
Deixando o bosque, ficamos emparelhados. O meu parceiro de vôo me olha profundamente e sinto ele me dar os parabéns. Não por tê-lo alcançado, mas por um mérito muito maior. Algo que não tinha percebido antes. Algo que se não tivesse feito antes, nada disso teria acontecido. Vôo de volta a grande torre e inicio a ascensão ao seu topo. Ao chegar lá, pouso levemente.
De volta ao topo daquela torre vejo que não sinto mais frio. Não sinto mais medo. Não me sinto mais preso. Agora sou livre, posso traçar meu rumo e seguir meu caminho. Mas nada disso seria possível se não estivesse estado ali antes e enfrentado o medo. O medo de mudar. O medo de enfrentar algo que nunca havia enfrentado. De querer sair dali. De querer viver. De querer ser livre.
Agora é hora de procurar e enfrentar outros medos. Pois agora sei para que eles servem e que sem eles a vida não teria sentido. Faço-me ficar leve novamente e meus pés não tocarem mais a torre. E sem saber qual o meu próximo destino, mas com a certeza plena de que em algum lugar chegarei. Inicio meu próximo vôo deixando para trás a alta torre.
Para quem ficou curioso com a música que fez minha mente pulsar e gerar as imagens que descrevo no texo, segue ele para escutar:
PS: Ainda faço um curta desse ímpeto.

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